terça-feira, 12 de julho de 2016

caderno de ateliê 59


Brinco aqui com três artistas: Arcangelo Ianelli, Willi Baumeister e Claude Monet. A ideia foi construir um denominador comum a partir de três movimentos pictóricos completamente distintos, usando o recorte e a colagem. Embora aqui isso não fique visível, o trabalho segue se desdobrando nas páginas anteriores e posteriores à imagem principal, inclusive incorporando meus manuscritos.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

ANGELUS PER LE ANIME SALVE 1 / caderno de ateliê 58












ANGELUS PER LE ANIME SALVE é um conjunto de recortes que se desdobra por trinta folhas de meu caderno de ateliê 58. A abertura e montagem de suas lâminas de papel algodão é múltipla, já que cada folha pode se desdobrar até três vezes, em direções diferentes. Fiz o caderno pensando nessa múltipla articulação. Posto aqui, agora, uma variação possível da primeira de cinco partes do conjunto completo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

PARADOXO


O que se deu ontem, na câmara dos deputados, em Brasília, repercutido nas ruas de várias cidades brasileiras, infelizmente não deixa dúvidas: apesar de nossa imensurável riqueza afetiva, de uma subjetividade sempre pronta a florescer nas mais adversas circunstâncias, o Brasil é um país a um só tempo barbaramente ingênuo e maquiavelicamente bárbaro. Na contramão de uma maturidade artística exuberante, a política brasileira, com todo o seu corolário social, minimamente satisfeito, parece nunca amadurecer de fato.

Difícil imaginar um paradoxo mais extremado.

De um lado a silenciosa delicadeza construtiva de Volpe, de outro os barulhentos golpes a machado do preconceito, do ódio, da vingança; de um lado a ‘lama estelar’ da alma metafísica do ser de Iberê, de outro o raso salobro do raciocínio cego, que não progride um centímetro além de sua sombra.

De um lado as filigranas de harmonia de Hamilton de Holanda, de Guinga, de Mehmari, de outro o discurso tosco, desarticulado e falastrão; de um lado a lâmina de doçura da voz de Virgínia Rodrigues, de outro o azedo amarento da língua mordendo a própria incompetência.

De um lado mundos de ternura e aceitação de Bandeira, Quintana, Augusto Frederico Schmidt, Adélia Prado, de outro a voracidade grosseira dos urubus verde-amarelos do capital, da usura e do lucro desmedidos.

De um lado a imaginação sertaneja iluminada pelo sol do humor e da irreverência de Suassuna, de outro a escuridão rasteira e criminosa da bancada da bala e do agronegócio; de um lado a inteligência aguda, dorida e sutilmente irônica, mas universal, de Raduan, de outro a ignorância e a mediocridade de quem não consegue sequer transcender o próprio umbigo.

De um lado a reinvenção dos sentidos do próprio corpo de Bertazzo, Deborah Colker, Stoklos, de outro essas monstruosidades estáticas de gordura e nervos contraditoriamente reunidos, que negam a maravilhosa máquina humana de belezas de Da Vinci.

De um lado as janelas da alma, abertas para o mundo, as Jéssicas de desejo e superação, os Carandirus de lucidez e coragem, de outro os porões da tortura, Ustras de covardia e medo, de velhacaria hipócrita.

De um lado o encantamento iluminado de erotismo e desejo de Zé Celso, a demolidora verve pagã do grande provocador Abujamra, do outro a atuação de nojo nas sombras, nas frestas, nos paraísos fiscais, de Cunhas de engonço.

De um lado a linha de incisão de Poty, que respira sonho e malabarismo, de outro trilhos abandonados da linha morta que vai dar na grande cova rasa dos covardes e mil vezes medíocres, condenados ao pesadelo de si mesmos.

A grandeza desse paradoxo poderia ser estendida para além do infinito, tanta a riqueza, formalizada em obras, da cultura brasileira, e tamanha e secular a barbaridade de que é feita a política nacional. Paradoxo insuperável, parece.    

quinta-feira, 7 de abril de 2016

E. M. Cioran / 3



Quando percebo que estou escorregando para o sono, tenho a impressão de mergulhar num paraíso providencial, de cair por toda a eternidade, sem nunca mais poder escapar. Então, nenhuma vontade de fugir me perturba. O que desejo, nessas ocasiões, é poder perceber cada um daqueles instantes o mais nitidamente possível, sem perder nada, usufruindo deles até o limite da inconsciência, antes da beatitude.

Tradução de Carlos Dala Stella


Quand j'observe mon glissement dans le sommeil, j'ai l'impression de m'enfoncer dans un abîme providentiel, d'y tomber pour l'éternité, sans pouvoir jamais m'en évader. D'ailleurs aucun désir d'évasion ne m'effleure. Ce que je souhaite dans ces instants, c'est de les percevoir le plus nettement possible, de n'en rien perdre et d'en jouir jusqu'au dernier, avant l'inconscience, avant la béatitude.

Aveux et Anathémes, E.M.Cioran


E. M. Cioran, Spaima, manuscrit de la traduction roumaine du poème Angoisse de Stéphane Mallarmé - next picture
     E. M. Cioran, Spaima, manuscrito da tradução romena do poema
                        Angústia, de Stéphane Mallarmé.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Eugenio Montale / 11


DEPOIS DA CHUVA


Ideogramas na areia molhada, 
pés de galinha. Me viro
mas onde uma ave poderá se esconder?
Talvez uma gaivota cansada, ou manca.
Nem sendo chinês para decifrar
aquela língua. Um sopro
e ela já era. Mentira que a natureza
é muda. Fala pelos cotovelos.
Tomara que ela não tagarele
demais sobre eu e você. 

Tradução de Carlos Dala Stella


DOPOPIOGGIA

Sulla rena bagnata appaiono ideogrammi
a zampa di gallina. Guardo addietro
ma non vedo rifugi o asili di volatili.
Sarà passata un'anatra stanca, forse azzoppata.
Non saprei decrittare quel linguaggio
se anche fossi cinese. Basterà un soffio
di vento a scancellarlo. Non è vero
che la Natura sia muta. Parla a vanvera
e la sola speranza è che non si occupi
troppo di noi.


Não há dúvida que algumas liberdades que se tomam ao traduzir são exageradas, mas às vezes sem esses exageros é praticamente impossível revivificar, na língua de destino, esse animal tão voluntarioso que é o poema. Avançamos o sinal também porque não conseguimos controlar completamente nossa vontade, mais ou menos idiossincrática, de meter o bedelho na criação alheia. De qualquer forma, o que conta mesmo é como o poema se comporta dentro do quadro da língua para a qual ele foi traduzido. Frequentemente as traduções de poesia mais 'fiéis' não impedem que os poema cheguem desconjuntados na nova língua. 

Foram essas liberdades que tomei ao traduzir Dopopioggia, de Eugenio Montale, acentuando certa concisão ideogramática a que o poema aspira. 


segunda-feira, 28 de março de 2016

Eugenio Montale / 10


INÍCIO DE JULHO

Julho mal começa e o pensamento
já está devendo.
Nenhum drama à vista, 
um mínimo de perturbações. 
O ritmo da mente em ponto morto
inexplicavelmente inspira sérias preocupações. 
Melhor se enfrenta o tempo afoito,
meio dia basta para liquidá-lo. 
Mas nesse início de julho cada segundo goteja 
e o encanador saiu de férias. 

Tradução de Carlos Dala Stella


I PRIMI DI LUGLIO


Siamo ai primi di luglio e già il pensiero
è entrato in moratoria.
Drammi non se ne vedono,
se mai disfunzioni.
Che il ritmo della mente si dislenti,
questo inspiegabilmente crea serie preoccupazioni.
Meglio si affronta il tempo quando è folto,
mezza giornata basta a sbaraccarlo.
Ma ora ai primi di luglio ogni secondo sgoccia
e l’idraulico è in ferie.


Poema do livro Diário de 71 e de 72, de Eugenio Montale, também traduzido para o português por Geraldo Holanda Cavalcanti, no livro Poesias, editora Record, transcrito a seguir.


COMEÇOS DE JULHO

Mal julho começa e já o pensamento
declara-se em moratória.
Dramas não mais ocorrem,
no máximo disfunções.
Que o ritmo da mente se relaxe,
e isso inexplicavelmente gera sérias preocupações.
Melhor se afronta o tempo quando é denso,
meia jornada basta a dispensá-lo.
Mas agora neste início de julho cada segundo pinga
e o bombeiro está de férias.

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.


quinta-feira, 24 de março de 2016

Cinco estações / Matias Dala Stella


Um média metragem delicado sobre uma mulher cheia de delicadezas: sua história, sua fala mansa, seus silêncios. Um filme que conta a história de uma afetividade enraizada, entre quem está atrás e quem está na frente da câmera.
Filme do Matias Dala Stella na Cinemateca, dias 1 e 2 de abril, sexta e sábado, às 19 h.

sábado, 19 de março de 2016

1º voo / tela finalizada







    Óleo sobre tela
    285x185cm

Esta tela é resultado do aproveitamento dos estudos para um mural projetado há dois ou três anos para uma empresa de Maringá, cuja nova sede seria inaugurada na época. O edifício, em fase de acabamento, possuía 3 andares e uma fachada principal, com 10 m. de largura por 15 m. de altura, que seria ocupada pelo mural. Além do painel mural, mais três trabalhos seriam instalados internamente, um por andar, com 5 ou 6 m² cada, em cimento ou pintura.

Estavam incluídos no projeto também os trabalhos de instalação, com assessoria de Rosélio Machado, cuja empresa executou e instalou os murais de Poty Lazzarotto, em seus últimos dez anos de vida, e que me auxiliou na instalação do mural de Sto Inácio, no Colégio Medianeira de Curitiba. Faziam parte da instalação, a execução de uma nova fundação, para suportar os 15 mil quilos do mural, e a reestruturação das paredes dos três andares, que somadas formavam a fachada principal do edifício, na qual seriam fixadas as placas de cimento.

Infelizmente o projeto artístico não teve desdobramento. Para que a ideia não se perdesse, transpus para a pintura o que seria o núcleo do mural, composto pelas mesmas três figuras: o ovo, a figura feminina e Ícaro - os três estágios do sonho de voar.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Emily Dickinson / 6

Emily Dickinson

O Silêncio é nosso maior temor.
A Voz acena com o Resgate -
Mas o Silêncio é Infinitude.
Sequer tem um rosto.

Tradução de Carlos Dala Stella

J1251 (1873)

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.


Esta a versão italiana de Giuseppe Ierolli

Il Silenzio è tutto ciò che temiamo.
C'è Riscatto in una Voce -
Ma il Silenzio è Infinità.
In sé non ha un volto.